1 - 1 QUANDO A REALIDADE DESABA

 Os escombros esmigalhando sem aviso prévio a minha ilusão em plena velocidade terminal, me reintroduzem um conceito inelutável: eu existo, tenho um corpo e as ferramentas a mim dispostas pouco podem fazer a respeito.

Partes dos meus órgãos reparadas com plástico, implantes de plástico barato, pior que o cheiro de plástico predominante no ambiente apenas o cheiro de plástico queimado devido ao superaquecimento dos processadores de segunda geração dos implantes. Olhando para fora: mais plástico.

As paredes de plástico servem apenas como véu encobrindo o riacho séptico vertical logo atrás: as baratas que se locomovem com a correnteza  sofreram mutações grotescas após tanto despejo de chorume genético e tecnologia experimental, não as vejo mas seu rastejar tem o peso de um bando de rinocerontes. Rompo o invólucro placentário sintético, abandonando a câmara bioindutora e vou de encontro ao que sobrou da realidade;

Noutros tempos, eu teria vomitado profusamente ao me deparar com a vastidão dessa paisagem de pilhas de lixo entre acidentes biológicos, entre eles um vendedor de drogas local que tenta gritar mas apenas vomita um teratoma, olhos crescendo em suas costas parecem coçar muito, ele tenta coçá-los a partir da borda das pálpebras; pedinte cria uma corda para fugir, aproveitando os quilômetros de tecido intestinal extra que gerou durante a semana aproveitando o suprimento daquela coisa verde que não lembro ter visto quando isso aqui ainda era uma empresa,

CONTAMINANTE: POLÍMERO. ENTENDEU? PO-LÍ-ME-RO!


as memórias

as memórias rapidamente me assolam quando

sondo a mente do porco morto no meio

do lixo com o dispositivo de sondagem


panoptitronografia
eu sou Deus eu sou Deus eu sou DeuseusouDeuseusouDeuseusou




  • !!ATENÇÃO!!
  • A sondagem de indivíduos necroativos É perigosa
  • conduzir biogênese antimemética assim que possível
  • Níveis de Hume severamente degradados: iniciando verificação de integridade metafísica
  • 1 + 1
  • = 2
  • 1 + 1
  • = 2
  • 1 + 1
  • = 2
  • 1 + 1
  • = 2
  • 1 + 1
  • = 2
  • 1 + 1
  • = 2
  • Integridade verificada em _100_ após 600 tentativas


Por que eu deveria me importar?

Sem o encargo da consciência, sem consequências e sem sanções, não vejo motivo real para me livrar dos meus costumes ditos indesejáveis, visto que a oposição em si é, em sua grande maioria, indesejável. Um pedido irracional, fomentado apenas pelo desespero pessoal. Deus me deu o sinal verde em suas escrituras.

Esse era meu pensamento enquanto apreciava a leitura da Oxiurose Antropológica e, não mais importante, atirava com um rifle .380 em trabalhadores braçais nas ruínas do panóptico, seguindo uma numerologia compulsiva. Em progressão geométrica, eu enumerava os trabalhadores e decidia em qual atirar. Sem um mínimo esforço, uma vida era eliminada, e um conglomerado de formigas emocionais se formava no ponto do extermínio; o remorso virava fome, e a morte virava caça. Qualquer um deles poderia ser o próximo, não podendo sair da linha de fogo do rifle ou estimar sua direção. Qualquer momento poderia ser o último. Eu estabelecia horários, as formigas faziam formações, provavelmente supersticiosas.

Minhas mãos suínas se afundavam num balde contendo o que não conseguia distinguir se provinha da carne ou geleia ultraprocessados e, enquanto dirigia aquela massa fétida ao paladar, a dúvida apenas se acentuava ainda mais. Com a deglutição, sinto os meus órgãos internos e sua deterioração em tempo real: a clara dissonância entre minha mente e as ações do corpo me faz pensar que estou sonhando.


POLÍMEROPOLÍMEROPOLÍMETOPILÍMETO


Isso! Era o que vim fazer aqui: recolher os documentos. Descobrir como viemos parar nessa ruína daquela ruína. Preciso voltar para Porostrakt. O sistema digestivo humano é perfeitamente capaz de digerir plástico, e o subproduto ainda dá uma bela decoração.



Em Porostrakt, o contador Geiger me produz uma sinfonia techno-muito-love: eles jogaram as bombas. A cidade agora é apenas uma cratera. Uma parede de carne munida de presas enormes e olhos distribuídos num padrão quase aleatório, carne fundida com paisagens e paisagens de plástico, armadura sintética, carapaça. Sobreviventes se aproximam com traje HAZMAT e lança-chamas: as protuberâncias nos trajes denunciam a que intempérie foram expostos.


Será que há vida após o câncer?

Enquanto aquela trupe multicolorida desvia do seu propósito original de classificar e separar tipos de perigos quimio-bio-nucleares, unindo-se para tentar parar a transformação zumbi da própria terra como organismo vivo, entro na câmara de sublimação e a programo para que faça a mínima intervenção de identificar e extirpar possíveis tumores que me impediriam de funcionar por completo: NaN diagnósticos confirmados. Falha ao inicializar reservatório sedativo. Iniciando procedimento. Uma miríade de lâminas e agulhas se aproximam devagar enquanto ainda consigo comparar a temperatura relativa do metal dos eletrodos com o meu tato. Sistemas somatossensoriais ativados ao máximo, esperando para receber o seu falo e devolver todo deleite orgástico do outro lado da moeda do prazer!

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